quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Mais uma breve história: "Esta é a nossa casa"


Clube de Contadores de Histórias
Projecto: Abrir as portas ao sonho e à reflexão

__________________________________________________________________

Esta é a nossa casa


O George estava dentro da casa.
— Esta casa é minha e ninguém pode entrar nela ─ disse.
— A casa não é tua, George ─ disse a Lindy. ─ Pertence a todos.
— Não, não pertence. Esta casa é só para mim! ─ gritou o George.
A Lindy e a Marly foram até aos baloiços.
— A casa não é do George, pois não? ─ perguntou a Lindy.
— Claro que não ─ respondeu a Marly.
A Lindy e a Marly espreitaram pela janela.
— A casa não é tua, George, e nós vamos entrar.
— Isso é que não vão! Esta casa não é para raparigas.
O Freddie estava a passar por ali com o Rabbity.
— Vou deitar o Rabbity ─ disse.
— Não podes ─ disse o George. ─ Esta casa não é para pessoas pequenas como tu.
O Freddie levou o Rabbity a dar uma volta de carro. A Charlene e a Marlene arranjaram a roda da frente. O Freddie queixou-se:
— O George não nos deixa entrar em casa.
A Charlene, a Marlene, o Freddie e o Rabbity foram direitos à casa.
— Alto aí! ─ gritou o George.
— Vamos arranjar o frigorífico ─ disseram a Charlene e a Marlene.
— Isso é que não vão! Esta casa não é para gémeas.
O jacto do Luther aterrou na casa. O Luther foi lá buscá-lo.
— Onde pensas que vais? ─ perguntou o George.
— O voo 505 despenhou-se e vou socorrer os passageiros. Fogo! Fogo! Ni-nó-ni! Ni-nó-ni!
— Não entras aqui! ─ opôs-se o George.
O Luther pediu auxílio por rádio:
— Dra. Sophie! Dra. Sophie!
— Em que posso ajudá-lo? ─ perguntou a Sophie.
— Não conseguimos chegar ao avião.
— Deixe isso comigo!
A Sophie e o Luther abriram caminho por entre a multidão.
— Abram alas para a médica ─ disse o Luther.
— Vamos entrar ─ anunciou a Sophie.
— Isso é que não vão! Esta casa não é para pessoas que usam óculos.
A Rasheda teve uma ideia:
— Vou escavar um túnel.
Enfiou a cabeça debaixo da casa.
— Vai-te embora. Esta é a minha casa ─ disse o George.
— E este é o meu túnel ─ retorquiu a Rasheda.
— Vai cavar túneis noutro lado. Esta casa não é para pessoas que gostam de túneis.
Ouvia-se agora muito barulho à volta da casa e estava calor. O George queria ir à casa de banho.
— Vou sair de casa ─ anunciou. ─ NINGUÉM PODE ENTRAR ENQUANTO EU ESTIVER AUSENTE.
Mal o George saiu, a Lindy, a Marly, o Freddie, o Rabbity, a Marlene, a Charlene, o Luther, a Sophie e a Rasheda entraram logo na casa. Quando o George voltou não havia lugar para ele.
— Esta casa não é para pessoas de cabelo ruivo ─ disse a Charlene.
O George começou a gritar, a chorar, a bater com os pés e a dar pontapés na parede da casa. Depois parou e pôs-se a olhar. Disse então:
— Esta casa É para pessoas de cabelo ruivo, para raparigas, para pessoas pequenas, para gémeas, para pessoas que usam óculos e para pessoas que gostam de túneis!
— Porque ─ gritaram a Lindy, a Marly, o Freddie, a Marlene, a Charlene, o Luther, a Sophie e a Rasheda ─ ESTA CASA É PARA TODOS!


Michael Rosen
This Is Our House
Massachusetts, Candlewick Press, 1996
Tradução e adaptação


sábado, janeiro 26, 2008

As cores e a vida


As cores criaram a vida…

Um dia, o preto e o branco encontraram-se numa bola de vidro tão transparente, que até parecia invisível. Com eles estava uma borboleta com muitas cores.

O preto e o branco olharam espantados um para o outro e perguntaram-lhe como tinha sido pintada.

Na Natureza, o azul, depois de ter criado o céu e o mar, encontrou-se com o verde, que já tinha criado os campos, as árvores e as ervas.

Tiveram um longa conversa e o verde resolveu dar as mãos ao vermelho para nascer o castanho; assim, os troncos das árvores ficaram todos contentes por terem uma nova cor. O azul-pai explicou ao céu que não sabia como tinha nascido; ele só sabia que tinha dois irmãos, o vermelho e o amarelo.

Um dia, o sol tinha-lhe contado que a sua cor surgira quando, uma vez, uma nuvem amarela se cruzara com uma vermelha. Depois ele ajudou o verde a colorir os campos e as flores. O vermelho e o amarelo, de mãos dadas, já tinham pintado todas as flores e os frutos, mas os animais andavam muito tristes, porque eram todos da mesma cor.

Então a borboleta, como voava muito bem, ajudou-os a vestirem-se das cores lindas que têm hoje e, como recompensa, todas as cores deram as mãos e ofereceram à borboleta um bocadinho de cada tom:
— É por isso que nas borboletas tu encontras, de certeza, todas as cores do mundo.


Pedro Alvim
As cores e a vida
Lisboa, Editora Plátano, 1981

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Para uma compreensão da actividade do PIPREM em 2007

A entrada de um novo ano pressupõe o pensar novas metas, novos objectivos, pensar o crescimento. Mas também é tempo de reflectir sobre o trabalho realizado no ano anterior. Aqui fica um pequeno resumo desse trabalho.

EM REGUENGOS DE MONSARAZ

População atendida em Reguengos de Monsaraz no ano de 2007
Num total de 92 famílias apoiadas.
Tipo de família

Dimensão do agregado familiar

Situação dos pais perante a actividade económica


Residência

Problemática da criança


Sinalizações recebidas no ano de 2007


Local onde é prestado o apoio


N.º de crianças apoiadas por modalidade de intervenção


Crianças saídas do programa em 2007

EM MOURÃO

População atendida em Mourão no ano de 2007

Num total de 37 famílias apoiadas.

Tipo de família

Dimensão do agregado familiar

Situação dos pais perante a actividade económica

Residência

Problemática da criança

Sinalizações recebidas no ano de 2007

Local onde é prestado o apoio

N.º de crianças apoiadas por modalidade de intervenção

Crianças saídas do programa em 2007

quarta-feira, janeiro 09, 2008

A CRIANÇA E A VIDA

Companheira do sol e das raízes, cheguei à grande cidade.
Numa mão levava o diploma, na outra, o medo. O resto era a história antiga da minha solidão e da minha esperança...
A escola que me deram não era um desses poéticos lugares, brancos e cheios de flores com que sonhamos no fim do curso: era um velho primeiro andar, de uma rua suja de sal, pregões e humidade. Os rapazes que me deram também não tinham nada de comum com esses meninos de bata branca, normais, nos primeiros dias de aula, e que as mãezinhas nos entregam como se fossem de porcelana.
Lembro-me desse nosso primeiro encontro, tão comovidamente, que receio não encontrar a palavra exacta para o esboçar. Abri a porta e eles entraram. Eram quarenta e cinco e faltavam carteiras. Faltavam muitas carteiras, mesmo quando os sentei três a três e pus cinco na mesa que me destinaram para secretária. O director chegou e disse: — Este é o seu reino e aqui tem os seus «meninos». E sorria. — Se tiver sarilhos — há-de tê-los, mas não estranhe — a esquadra da polícia fica no fim da rua. E eu estou ao seu dispor. Para as necessidades imediatas, aqui tem isto. Tem de escolher desde o princípio: ou a Senhora, ou eles. Sem complacências, se quiser sobreviver. Lamento dar-lhe a escória. Mas, paciência.
Desceu a escada.
E eu fiquei ali, face à nova aventura.
O silêncio que me envolveu era um silêncio pesado, expectante. E, no meio do silêncio, eles ali estavam, na manhã que nascia. Esculpidos em vento e mar.
Vinham dos barcos ancorados no cais, do bairro de lata, de sabe- -Deus-donde. Traziam nas mãos, em vez de mala e livros – não sei porquê, mas traziam – folhas de plátano e ramos de amendoeira florida. O Outono dourava-lhes os cabelos.
Eram sementes vivas da mais autêntica liberdade e não sabiam nada de preconceitos, nem de palavras, nem de coisa nenhuma.
Olhei-os também em silêncio. Um por um. Longamente. Depois, peguei na régua que o director acabara de oferecer-me como apoio e dei-a ao que me pareceu mais velho: Toma! Vai atirar fora. E depois, não sei o que lhes disse. Mas a fome de ternura era neles como o sol, a chuva e o desconforto. E como éramos primários, pobres e sozinhos, estabelecemos desde aquela hora um entendimento lúcido e discreto.
E foi assim que ficámos solidários e Amigos – Para – Sempre.
Aprendi então que a Verdade é uma palavra real.
E a Lealdade, também.
Depois, muitos vieram: da Europa, da África, das ilhas perdidas do Atlântico. Mas ali, na escola húmida e despojada, é que aconteceu o milagre que nunca mais se repetira.
Tenho-me perguntado muitas vezes porquê. E cada vez vou tendo mais a certeza que o excesso de conforto destrói o Rosto Iluminado do Homem. Aqueles não tinham, não esperavam, nem pediam nada: por isso, estavam disponíveis para tudo. Os passeios que demos, as notícias que comentámos, os poemas que lemos, a vida que conscientemente os ajudei a desventrar, foram a sua primeira riqueza e fizeram crescer na «escória» uma branca flor de fraterna alegria.
Foi como se um vento de loucura nos tivesse perturbado a todos, e o mundo estivesse suspenso do que fizéssemos. E nas paredes sujas da sala, pintámos o sol e pássaros verdes. E nos buracos dos tinteiros partidos nasceram flores. Eles eram a Terra quente e aprenderam a amá‑la também. E a pobreza que os esboçava começou a ser um pretexto, não para a sua derrota, mas para a sua dignidade e a sua força.
A alegria daqueles rapazes contagiava os indiferentes e as pessoas, muitas, muitas: poetas, professores, pintores, operários, sentiam que junto deles as manhãs eram mais claras e a fome mais terrível. Hoje, alguns serão operários honestos, ardinas apressados, vendedores ambulantes; outros serão marinheiros, outros, sei lá o que serão! Sei lá o que a vida fez deles!
Estas páginas são uma homenagem que lhes devo. Guardei-as, dia após dia, ano após ano, até os perder nos novos caminhos que tive de pisar, como um testemunho. Oxalá alguns deles possam ler estas linhas e reencontrar-se nelas.
Não eram génios, nem poetas, nem meninos-prodígios. Eram filhos de pescadores, de varinas, de ladrões-de-coisas... essenciais-ao-dia-a-dia. Moravam em casas com buracos e dormiam nos barcos, no vão das portas, nos degraus da doca, em qualquer sítio. Alimentavam­‑se de um bocadinho de pão, de um peixe assado e às vezes de água. Apenas.
Tinham oito, nove, dez, onze, quinze anos, mas conheciam as mil maneiras de escapar aos polícias, de viajar de borla, de sobreviver. Os dias eram-lhes duros e comprados com muita coragem e destemor. Por isso custei a entender – ENTENDI!? – como a Poesia foi para eles tão violenta e tão fácil. Pediam para fazer poemas, como quem pede o pão da fome. A princípio a medo, ingénuos. Depois, a mergulharem na aventura da palavra com uma dor e uma lucidez já adultas.
Quando em 1960 expus a primeira colectânea de textos destes rapazes, ilustrados por alguns dos nomes mais válidos da nossa pintura, o ambiente que cercou a exposição, ao verem a idade dos autores, foi de suspeita e dúvida. Quando eles apareciam, desgrenhados e sujos – a hilariedade era quase completa. Saí de lá muitas vezes a apetecer-me rebentar a cara das pessoas, como o Mário e o Zé rebentaram os vidros da casa de uma senhora que duvidara da autenticidade do que estava exposto. E eram eles que me confortavam, soberanos: — Senhora! Deixe lá. Têm a cabeça cheia de vento. Não percebem nada.
Entrava na escola e olhava para Cristo. Sorríamo-nos.
E ficava tudo certo, outra vez.
Mas ensinaram-me que, quando se é humilhado naquilo que em nós é claridade e certeza, aprende-se mais depressa o sentido exacto da liberdade, da paz, do ódio, do amor e do ridículo do quotidiano.
Eles revelaram-me que a miséria transforma as crianças, mais que os adultos, em anjos implacáveis de lucidez, e que a fome os ateia e lhes faz crescer nos olhos brancas e terríveis asas de sonho ou destruição. E há, nestes anjos de fogo, uma voz oculta e violenta em que é preciso, é urgente, meditarmos. Ela pode denunciar, construir ou semear a alegria, a vergonha ou o remorso.
Ela pode ser a semente da Esperança, da Paz entre os homens.
Ela pode ser o ódio.
Ela pode ser o Amor.

Maria Rosa Colaço
A Criança e a Vida
Lisboa, Ed. Ulmeiro, 1996
Adaptação

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Curso "O Desenvolvimento da Linguagem: Avaliação e intervenção em Equipas Transdisciplinares

dias 11 e 12 - Janeiro - 2008, no Auditório do IPJ (Instituto Português da Juventude) - Coimbra.

Mais informamos que a ANIP fará um preço especial (38,00 euros) para os técnicos de Intervenção Precoce (Aveiro, Alentejo e Coimbra). Aquando da inscrição deverão mencionar que integram uma Equipa de IP / Distrito ou Região.

ANIP - Associação Nacional de Intervenção Precoce
Av Dr Bissaya Barreto (Hospital Pediátrico - Pav. Azul)3000-075 COIMBRA
Tel. 239 483 288 Fax: 239 481 309
anip.sede@mail.telepac.ptwww.anip.net

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Estilos Parentais – Diferentes Formas de Educar

No sentido de melhor compreender os estilos de educação adoptados pelos pais e suas consequências, vários são os autores que têm contribuído para uma classificação dos estilos parentais de forma a poder avaliar o seu impacto no desenvolvimento psicossocial da crianças e prevenir que os mesmos sofram algumas consequências nefastas, bem como promover hábitos saudáveis para a relação pais-filhos.

Considerando alguns estilos considerados por Baumrind (1971), verificamos bastantes diferenças na relação educativa, ao nível do calor afectivo, controlo, comunicação e/ou exigência de maturidade:
¨ Estilo Autoritário, em que há uma tentativa de controlar e modelar, de forma rígida, as atitudes da criança. Estes pais valorizam uma obediência absoluta, recorrendo a medidas punitivas (verbais ou físicas) para que esta se comporte de acordo com a sua exigência. São frequentes as críticas ou ameaças à criança (“se não fazes os trabalhos, deixamos de gostar de ti!”; “és um inútil, nem tirar boas notas consegues!”), havendo escassas manifestações de afecto;
¨ Estilo Permissivo, em que os pais funcionam como recursos para os desejos das crianças, e não como modelos. Neste estilo existe a ausência de normas, não encorajando qualquer obediência. Há geralmente calor afectivo e comunicação positiva, sem exigências de maturidade. Em 1983, este estilo foi dividido em dois (Maccoby & Martin):
o Estilo Indulgente, em que os pais respondem aos pedidos das crianças e são carinhosos, não sendo exigentes quanto a normas ou deveres, nem actuando como modelos de comportamento;
o Estilo Negligente, em que os pais não se envolvem nas suas funções parentais, havendo uma desresponsabilização crescente ao longo da vida da criança, mantendo apenas a satisfação de necessidades básicas (físicas, sociais, psicológicas e intelectuais);
¨ Estilo Participativo ou Autoritativo, em que há o estabelecimento de normas e limites, num clima de calor afectivo. A comunicação é positiva e optimista. Estes pais adequam a sua atitude à especificidade da criança, no tocante à sua idade e motivações, fazendo exigências de maturidade concordantes com as capacidades e interesses da criança.

A investigação tem demonstrado que pais que adoptam um estilo parental participativo têm filhos com maior sucesso escolar e social. De facto, se é importante que os filhos tenham boas notas, o amor parental não é condicionado por esse facto.

É importante que as crianças sintam que os pais os amam incondicionalmente, mesmo quando estabelecem limites (que naturalmente serão questionados pelas crianças e jovens), quando dizem ‘não’ ou quando os filhos cometem erros, e que estas posturas sejam acompanhadas de uma explicação ou reflexão conjunta sendo que, em algumas situações, possam ser negociadas.

O percurso no sentido do sucesso nas funções parentais é construído em cada dia e, não obstante a investigação nos dar várias noções que potenciam uma educação mais eficaz, não há uma linearidade que tão frequentemente pais e educadores procuram.

De facto, o desenvolvimento social e afectivo de uma criança é condicionado fortemente pela educação parental, mas outras variáveis têm influência, como o meio escolar, os amigos, as famílias alargadas, ou mesmo a sociedade em que se encontra. Deste modo, poderemos encontrar excepções em que filhos de pais com um estilo participativo poderão ter menores resultados ao nível escolar e social, ou o inverso poderá ocorrer com filhos de pais com um estilo negligente de educação.

De modo geral, os estudos apontam para que os filhos de pais autoritários sejam obedientes, mas com maiores níveis de ansiedade, mostrando-se inseguros e infelizes, com baixa auto-estima e um índice elevado de depressão. Sendo os filhos de pais negligentes que apresentam maiores fragilidades do ponto de vista psicológico, emocional e social.

A arte de educar é um processo em que os pais vão evoluindo a par do desenvolvimento dos seus filhos. É fundamental que os pais encarem a parentalidade com humildade que lhes permita continuar a reflectir e procurar dar o melhor de si, respeitando a individualidade da criança e promovendo espaços e actividades em que esta possa desenvolver competências sociais e emocionais, já que estas são as chaves para um maior bem-estar.

Catarina Rivero

Um bom ano de 2008 é o desejo do PIPREM


quinta-feira, dezembro 20, 2007

Para reflectir um pouco....

Crónica de Daniel Sampaio BRINCAR


Nunca pensei que os gerentes da Duracell se preocupassem com estudos sobre pais e filhos. Para mim, mandavam numa simples fábrica de pilhas, capazes de fazer correr sem parar um irritante coelhinho! Ideia preconcebida: acabam de publicar um estudo com 900 crianças, onde se demonstra que as portuguesas são as que diariamente menos brincam com os pais. Só seis por cento dos nossos meninos admite brincar com os pais todos os dias, um número muito abaixo da média europeia, onde uma em cada cinco crianças tem momentos diários de divertimento com a família. Como chegámos a esta triste situação? Basta olhar em redor e compreenderemos tudo. O governo falhou na política de apoio à família e muitos dos nossos pais têm má qualidade de vida: salários baixos, empregos instáveis, maus transportes, pouco enquadramento e deficiente articulação com as escolas, como podem ter disponibilidade ou sequer desejar mais filhos? Outros não têm dificuldades financeiras de maior, mas padecem de egoísmo ou vivem na crença de que educar é uma tarefa esgotante, por isso o que importa é arranjar brinquedos para "entreter" os mais novos: já basta o trabalho para os fatigar, em casa é preciso "distrair", "desanuviar" ou "descansar". Deste modo, são bem vindos os novos brinquedos electrónicos: com a destreza das crianças de agora, depressa aprenderão como os manipular e não importunarão os adultos por largos momentos. A consola de jogos, o computador e a televisão transformaram-se assim na "baby-sitter" dos tempos modernos, a garantia de que os mais novos estarão ocupados por umas horas: com trabalhos de casa feitos à pressa e uma refeição rápida, depressa se chega à hora de deitar, amanhã correrá melhor! Mas não corre: em todo o lado vemos crianças inquietas com incapacidade de pensar, irritáveis por sono insuficiente, indisciplinadas na escola por ausência de limites em casa, com dificuldades na leitura e na escrita. Por exemplo, já experimentaram pedir a uma criança de oito anos para ler um texto em voz alta? O resultado é surpreendente: gagueja, ignora a pontuação e depressa se fatiga, porque não está habituada a ler em público, só é treinada para descodificar símbolos do "gameboy" ou da "play-station". Que saudades das crianças que brincavam na rua, que jogavam à bola na praceta ao pé de casa ou que fugiam para se divertir em casa dos vizinhos! Hoje saem da escola a correr, trazidas por pais apressados que as depositam no judo, na música, na natação ou no explicador, para mais tarde serem recolhidas à pressa, só a tempo de uma refeição apressada antes de tentarem dormir...
Que fazer? Em primeiro lugar, lutar para que tudo isto se altere. Passar a mensagem de que o jogo é a melhor maneira de as crianças aprenderem tudo: se for fornecido um contexto que permita a uma criança o relacionamento tranquilo com um adulto, ela será a primeira a aprender a importância da sua relação com os mais velhos e, movida pela sua curiosidade natural (existente em todas), esperará a brincadeira mais ou menos divertida, mas sobretudo terá a certeza que a sua fantasia crescerá. Tudo isto poderá ser feito sem brinquedos, com as mãos de pais e filhos e o corpo de todos, sem apitos electrónicos ou ecrãs tecnológicos individuais, a dificultarem a simples troca de olhar em família. E as emoções desencadeadas pelos brinquedos de hoje, quem as conhece, se depressa são descarregadas no jogo seguinte? Não podemos esquecer que educar consiste em a pessoa se oferecer como modelo. Uma pessoa fica "educada"quando cresceu e já é capaz de se constituir como um exemplo a seguir: quando um irmão imita o mais velho é porque este desempenhou um papel capaz de ser seguido (esperemos que no sentido positivo) pelo mais novo. Mais do que os livros ou revistas, que embora cruciais podem dar olhares perturbados da realidade (sobretudo se não os lermos em conjunto com os mais novos); mais do que recomendações palavrosas de pais para filhos, tantas vezes não ouvidas ou depressa esquecidas; muito mais do que o último jogo de computador, em breve substituído pelo que acaba de sair, ou consumido a correr para alcançar o objectivo de "vencer mais um obstáculo", a resposta está no olhar da criança que nos pede: "Podes brincar comigo?"

terça-feira, dezembro 04, 2007

O amor passa gerações

Clube de Contadores de Histórias
Projecto: Abrir as portas ao sonho e à reflexão
___________________________________



O cestinho de romãs

inspirado numa história
tradicional portuguesa


Não havia ninguém que gostasse tanto de romãs como a avó Adelina! Gostava de as olhar, de as pôr bem no centro da mesa a enfeitar o dia, e também de as comer, de se deliciar com os seus grãozinhos doces.

Por isso, a sua amiga Miquelina lhe ofereceu, por altura do Dia de Reis, um cestinho de romãs.
A avó Adelina agradeceu-lhe muito, de olhinhos a brilhar, mas depois pensou:
"Vou dar este cestinho de romãs à minha filha Maria!"

Pegou numa folha de papel branco e fez um lindo guardanapo recortado, com o qual forrou o cestinho. Depois, foi a casa da filha. Viu que ela não estava em casa e resolveu deixar-lhe o cestinho em cima da mesa da sala de jantar. Como ela ia ficar contente! Em cima do guardanapo de papel recortado, as romãs ainda pareciam mais rainhas.

Quando a filha chegou a casa e viu as romãs, ficou admirada e logo teve uma ideia:
"Vou dar este cestinho de romãs à minha filha Aninhas!"

E se bem o pensou, melhor o fez. Levou o cestinho para casa da sua filha Aninhas, que tinha acabado de casar e ainda andava a arrumar os tarecos. Como ela ia ficar contente!

Como a filha tinha saído para comprar pão, deixou-lhe o cestinho de romãs em cima de um aparador e foi-se embora em bicos de pés, a sorrir da surpresa que lhe tinha feito.

Quando a Aninhas chegou a casa, ficou admirada e logo teve uma ideia:
"Vou dar este cestinho de romãs à minha avó Adelina!"

Ela sabia muito bem que o melhor presente que a sua avó poderia receber era, sem sombra de dúvida, um cestinho de romãs. Por isso, entrou muito sorrateira em casa da avó, que por acaso tinha deixado a porta aberta e cantarolava lá ao fundo, no quintal, e com muita cautela pôs o cestinho em cima da mesa. Depois, em bicos de pés, saiu e foi para sua casa, a sorrir da surpresa que a avó ia ter.

E foi mesmo uma surpresa! Quando a avó Adelina viu o cestinho, já seu conhecido, em cima da mesa, a enfeitar o dia e o seu coração, duas lágrimas de ternura escorreram-lhe pelas faces enrugadas. Aquelas eram as mais lindas romãs que havia em todo o mundo.



Maria Alberta Menéres
O livro de Natal
Porto, Porto Editora, 2003
Adaptação
__________________________________________________
Caros Colegas,

Nestes tempos tão apressados, em que não há lugar para a reflexão e em que as preocupações materiais se sobrepõem ao prazer das coisas simples, a leitura de pequenas histórias, repassadas de humanidade e de beleza, pode contribuir de uma forma significativa, para um alargar de horizontes que a sociedade tem querido, por força, restringir às superficialidades e canseiras do dia-a-dia.

Da constatação deste facto, nasceu, na Escola Secundária com 3º ciclo do Ensino Básico Daniel Faria – Baltar, o Clube de Contadores de Histórias, com a finalidade de levar às diferentes turmas da referida escola histórias capazes de proporcionarem momentos de diálogo, de reflexão e de sonho, que tão necessários se tornam para a libertação de tensões e para o despertar do gosto pela leitura, da qual andam os jovens de hoje bastante alheados.

O projecto teve a adesão entusiasta de bastantes alunos, quer do Ensino Básico quer do Ensino Secundário, que se dispuseram a partilhar com os colegas a sua experiência de descoberta das pequenas histórias e do seu universo de valores. A tolerância e a generosidade, a delicadeza e a rectidão, o respeito pela Natureza, a capacidade de sonhar, são princípios que é necessário inculcar nos jovens, já que tantos se encontram à deriva numa sociedade que diz defender os direitos destes, mas que, na realidade, apenas pretende explorar as suas fragilidades com o fito do lucro. É confrangedor ver-se tantas crianças e adolescentes influenciados por programas televisivos francamente medíocres, quando se poderia optar por propostas de qualidade, capazes de promover os valores da verdadeira cultura, que é aquela que assenta no respeito por si próprio e no respeito pelos outros.

Cabe à escola tentar contrariar a vertente massificadora de certa comunicação social, incutindo nos alunos o gosto pela leitura e ajudando-os a crescer em sensibilidade. A violência na escola deve-se, em grande parte, a uma educação de natureza materialista, que tem descurado a formação do carácter em proveito de conteúdos muitas vezes estéreis. A pouca adesão dos alunos às matérias leccionadas é um sinal claro de que a escola necessita de mudanças, não no sentido das reformas educativas implementadas, quase sempre geradoras de instabilidade e de desorientação, e muito menos em nome de um economicismo que a nada leva, mas sim no sentido de promover os valores fundamentais do carácter, sem os quais nenhum ser humano poderá crescer em dignidade e em esperança: o espírito de diálogo e de solidariedade, a compaixão pelos que sofrem, a discrição e a simplicidade, em oposição ao exibicionismo tão em voga, a delicadeza e a compostura, a honestidade.

As pequenas histórias que o Clube de Contadores tem procurado divulgar no âmbito da escola, transmitem, de uma maneira simples e acessível às diferentes faixas etárias, esses mesmos valores, que um ensino de carácter demasiado informativo e tecnicista relegou para segundo plano e que uma sociedade baseada no princípio da aparência se tem encarregado de anular.

Na sequência disso, decidiu o referido Clube tornar o seu projecto extensivo não só aos professores da Escola Secundária com 3º Ciclo Daniel Faria – Baltar, mas também aos professores de outras escolas, na convicção de que as histórias partilhadas serão motivo de satisfação e de descoberta para quem as ler e ouvir, passando assim a ser enviadas por e-mail semanalmente. Gostaríamos muito que os professores que as receberem e as apreciarem procedam ao seu reencaminhamento, para que o maior número possível de pessoas venha a beneficiar com a sua leitura.

Gostaríamos também de receber as vossas opiniões sobre este projecto.

Certos do vosso melhor acolhimento



O Clube de Contadores de Histórias
contadoreshistorias@gmail.com
http://www.prof2000.pt/users/historias/

Biblioteca da Escola S/3 Daniel Faria – Baltar

quarta-feira, novembro 28, 2007

Em Reguengos, dia 5 de Dezembro de 2007

Conferência

"Vinculação e Desenvolvimento"


A sensação de estarmos seguros, porque a outro estamos afectivamente ligados, tem sido amplamente investigada nas últimas décadas, e descrita como o alicerce para um desenvolvimento saudável.

É objectivo desta conferência abordar o conceito de vinculação, mostrar como o laço que se vai construindo desde os primeiros tempos entre o bebé e os seus cuidadores se reflecte ao longo das suas vidas e, ainda, através de um caso prático, exemplificar como a Intervenção Precoce pode auxiliar no desenvolvimento de uma vinculação segura, potenciando o que acontece na relação entre prestador(es) de cuidados - criança.


Oradora convidada: Prof. Doutora Constança Machado (Univ. Évora)
Apresentação de caso: Vânia Pereira Branco (Psicóloga - PIPREM)
Local: Auditório do Parque de Feiras e Exposições de Reg. Monsaraz (Recinto da Feira)
Horário: 16 horas
Inscrições: enviar nome e serviço para piprem@gmail.com
Entrada Gratuita!

segunda-feira, novembro 26, 2007

A qualidade da interacção mãe-filho na criança com alterações neuromotoras


Susana Gabriela Moreira Costa Lima Poças, Fisioterapeuta – a exercer no Centro de Reabilitação de Paralisia Cerebral do Porto.supocas@gmail.comData: Maio de 2003


A qualidade da interacção mãe-filho, na criança com alterações neuromotoras O bebé vem ao mundo trazendo com ele capacidades imensas para estabelecer uma relação humana. Ele é, de imediato, um participante activo na formação das suas primeiras e mais importantes relações. A sua preparação social, embora extraordinária, é obviamente imatura. No entanto, a noção de imaturidade tem em si um peso excessivo que nos bloqueia. O rótulo “imaturo” não pode servir como luz verde para pormos de lado um comportamento, até que chegue a sua versão de maior maturidade; nem pode ser um convite para focarmos o próprio processo de desenvolvimento – a misteriosa série de transformações até à maturidade. Em última análise, cada ser humano é simplesmente aquilo que é, no momento em que o encontramos. (1) A primeira revelação que o bebé tem do mundo humano consiste simplesmente em tudo quanto a sua mãe faça de facto com o rosto, voz corpo e mãos. O decorrer contínuo dos seus actos fornece ao bebé o princípio da sua experiência com o material da comunicação e das ligações humanas. Esta coreografia de comportamento maternal, é a matéria – prima do mundo exterior com a qual o bebé começa a construir o seu conhecimento e a experiência de tudo o que é humano: a presença humana, o rosto e voz humanos, as suas formas e modificações, as expressões, as unidades e significado dos comportamentos, a relação entre o seu próprio comportamento e o de outra pessoa. (1) Em 1990, Barnard e Kelly definiram a interacção como uma dança adaptativa mútua, que pressupõe quatro características: (2)• Repertório de comportamentos de cada elemento da díade: da mãe destaca-se a capacidade para interpretar os sinais do bebé, bem como comportamentos de envolvimento e estimulação; da criança esperam-se competências sociais (ouvir, olhar, atenção visual da mãe, adaptação corporal ao movimento) e ainda regularidade e previsibilidade nas respostas.• Contingência da resposta por parte de ambos os elementos da díade.• Riqueza das interacções avaliada, segundo os autores, pelo aumento de tempo, diversidade de brinquedos e actividades que a mãe dedica à criança.• Mudança dos padrões adaptativos em função do desenvolvimento da criança. Segundo Daniel Stern, (1) a mãe durante as interacções com o seu bebé, raramente ou nunca utiliza o quadro completo de expressões humanas que conhece. Só um número limitado de expressões é necessário neste período de desenvolvimento para regular o fluir normal da interacção, e para delinear os pontos principais desse fluir. O conjunto de sinais mais básico para este propósito consiste em exibições para iniciar, manter, modular, terminar e evitar uma interacção social. Para iniciar ou dar sinal de vontade ou de convite para interacção: a expressão de fingida surpresa serve esta função. Parece-se com uma caricatura de uma reacção de surpresa ou de orientação e tem muito de comum com os comportamentos universais raciais de saudações descritos por Irennus, Eibl-Eibesfeldt e por Rendon e Ferber. Nalguns tipos de interacções no brincar, é a expressão mais comum. A manutenção e modulação de uma interacção em progresso: o sorriso e a expressão de preocupação servem estas funções. O sorriso é um potente sinal afirmativo, não só de que a interacção se está a passar, mas também de que se está a processar positivamente. A expressão de preocupação é também observada quando a interacção se processa negativamente, manifestada pelo choro, portanto a resultar mal. É uma tentativa clara, e talvez um sinal das intenções da mãe para tornar a focar, tornar a prender e assim manter a interacção. A terminação da interacção: a careta com desviar da cabeça e o quebrar do olhar é um sinal para parar, pelo menos de momento, uma intenção que já não está a resultar para o bebé, para a mãe ou para ambos. A terminação pode, é claro, ser momentânea, e ser seguida de um sinal para reiniciar a interacção, recomeçando-a doutro modo. O evitar uma interacção social: um rosto neutro ou sem expressão, mudo, especialmente com o evitar do olhar, é um sinal claro de falta de vontade ou de falta de intenção para estabelecer contacto activo. Todas estas expressões que a mãe utiliza variam de indivíduo para indivíduo, assumindo graus de duração e intensidade diferentes. O primeiro encontro entre a mãe e o bebé é marcado pelo olhar, sendo talvez a mais versátil das respostas interactivas. Os seus ciclos de actuação podem ser extremamente rápidos e funcionam tanto para receber como para enviar informação. (3) Os primeiros anos de vida representam um período dinâmico, durante o qual a maturação dos diferentes sistemas do organismo e a interacção ambiental desempenham um papel de extrema importância no processo de desenvolvimento da criança. As alterações motoras que afectam os sistemas sensório-motores vão influenciar significativamente este processo. (4) O nascimento de uma criança deficiente traz aos pais um grande stress emocional, podendo por isso provocar alterações no seu comportamento, fazendo assim com que as experiências de interacção com um bebé que tenha alterações neuromotoras sejam diferentes das interacções com um bebé saudável. Se existirem poucas oportunidades para interacções recíprocas e, consequentemente, poucas oportunidades para aprender, poderá haver défices no futuro desenvolvimento da criança. Por outro lado, as perturbações na interacção diádica mãe-criança, podem advir das condições patológicas da criança que a impossibilitam muitas vezes de comunicar. Almiral refere quatro défices que podem influenciar gravemente a interacção com estas crianças: (4)• A capacidade reduzida para interagir e explorar o meio.• A capacidade reduzida para jogar e interagir com outras pessoas através de movimentos e vocalizações para estimular a retroacção vocal dos outros.• A dificuldade para expressar emoções, necessidades e pensamentos e para trocar informações com os outros.• A dificuldade para controlar os mecanismos de comunicação normal (fala e movimentos motores finos)Bebés com alterações neuromotoras têm alterações da postura e do movimento, o que condiciona a interacção com o seu meio ambiente. Por um lado as alterações posturais nem sempre permitem o contacto facial necessário à interacção comunicativa como também, essas limitações de padrões de movimento podem afectar negativamente a interpretação das mães quanto às capacidades interactivas dos seus filhos. Um dos objectivos da intervenção terapêutica em crianças com alterações neuromotoras e com as suas famílias, nomeadamente as mães é, assim, facilitar a interacção mãe-filho.


BIBLIOGRAFIA1. Stern D., Bebé-mãe : primeira relação humana. 1ª ed. : Moraes Editores; 19772. Barnard K. E., Kelly J. F., Assessment of parent – child interaccion. In Meisels S. J. & Shonkoff J. P. Eds, Handbook of Early Childhood Intervencion . New York. Cambridge University; 19903. Shaffer H. R., Interacción y socialización. Aprendizaje Visor; 19894. Marques M.R., Comunicação e linguagem na interacção entre mãe e criança com paralisia cerebral aos 2 anos de idade. Estudo exploratório, 1998


Trissomia 21: Novos Avanços

6 - 7 Dezembro 2007
Fundação Calouste Gulbenkian Auditório 2
Lisboa PORTUGAL

Enquanto Presidente da Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21 (APPT21), venho por este meio convidar todos os interessados a visitar a nossa linda cidade de Lisboa e a participar no nosso Congresso anual sobre Trissomia 21.
O Programa definido pela APPT21 em conjunto com o Centro de Desenvolvimento Infantil Diferenças tem como principal objectivo discutir as últimas investigações e desenvolvimentos na área da intervenção médica, educativa e social nos indivíduos com Trissomia 21.
Desde 1992, que a APPT21 tem estado empenhada na concepção e implementação de vários Programas de Intervenção com o intuito de promover várias áreas fundamentais do desenvolvimento: competências motoras; linguagem e fala; competências de literacia; consciência fonológica; competências numéricas; memória de trabalho; competências sociais e funcionamento independente e transição para o emprego e vida activa.
Este ano, temos o prazer de ter connosco quatro importantes nomes internacionais, reconhecidos especialistas na área da Trissomia 21.
A Professora Sue Buckley e o Professor Ben Sacks, dois nomes importantes ligados à educação e ao desenvolvimento cognitivo de indivíduos com Trissomia 21, envolvidos desde os anos 80 nas investigações mais relevantes nesta área.
Dr. Siegfried Pueschel, de entre as suas várias habilitações universitárias, destacamos a investigação e formação na área da intervenção médica e defesa dos direitos dos indivíduos com Trissomia 21.
A Drª Liz Marder, é pediatra e é actualmente a responsável pelo Grupo Médico de Investigação em Síndrome de Down e consultora na área da medicina na Associação Inglesa de Sindroma de Down. A Drª Liz Marder tem trabalhado de perto com a Drª Jennifer Dennis na área do desenvolvimento de orientações médicas e Síndrome de Down.
Haverá tradução em simultâneo para Português.
Sejam bem vindos
Teresa Palha

PROGRAMA DETALHADO:http://www.nasturtium.com.pt/detalhes_f.php?id=26
SECRETARIADO:
NASTURTIUM
Educação, Saúde e Bem-Estar
www.nasturtium.com.pt
geral@nasturtium.com.pt
+351960016880
INSCRIÇÃO:
40€ até 30 de Novembro
55€ depois 30 de Novembro
Inscrição on-line WWW.NASTURTIUM.COM.PT

sexta-feira, novembro 23, 2007

Auto-estima Não é Narcisismo




Encantarmo-nos connosco próprios não só é normal como desejável. Mas ter fantasias de grandeza e omnipotência revela que, no fundo, há em nós uma grande falta de amor.
Capazes de aguentar e produzir o que quer que seja, de orientar, apoiar e satisfazer toda a gente, os narcisistas orgulham-se da sua força e dureza. Com muita necessidade de serem admirados, controlar tudo e todos e continuamente empenhados em obter gratificações, esforçam-se por ter uma vida respeitável no campo profissional e no sentimental.
Mas, como muitas vezes não têm consciência de um certo vazio que os habita, tudo lhes sabe a pouco. E quase sempre estão insatisfeitos.
Dizem os entendidos que, com frequência, se trata de pessoas interiormente desamparadas e frágeis que, não se tendo sentido amadas durante a infância, sem disso se aperceberem passaram a achar-se não merecedoras de afecto. E, ao caminharem pela vida fora, a nível inconsciente procuram defender-se dessa sensação de frustração relacionando-se com pessoas poderosas, fortes, eficientes, ricas, que de uma forma ou de outra se destacam, são respeitadas e admiradas. Entretanto, esquecem-se de que a única coisa que verdadeiramente lhes falta é amor.

Amor com amor se paga

Mágoas profundas, traições de amor precoces, quem não as teve? Há porem, casos em que, desde criança, esse sofrimento foi de tal maneira controlado que apenas conseguimos valorizar-nos à superfície de nós mesmos. Não ao nível da nossa essência. E, então, não há em nós suficiente disponibilidade para nos relacionarmos com os outros numa base que não seja a do poder. A do pragmatismo -que, por vezes, subtilmente resvala para o oportunismo. Talvez, desde crianças, tenhamos aprendido a chamar a atenção dos outros e a conseguir afecto através de atributos como, por exemplo, a inteligência ou a beleza. E, usando-os para conseguir que os outros nos admirem, fomo-nos habituando a encará-los como a única defesa contra a dolorosa sensação de não ser mos amados. Poderemos, nesses tempos longínquos, ter ocupado uma posição marcante na família, por exemplo sendo o filho mais bem dotado, do qual se espera que realize as aspirações familiares e a quem teria sido atribuído precisamente esse papel. Natural é, por isso, que tenhamos sido excessivamente estimulados nesse senti do sem que, ao mesmo tempo, tenha havido alguém próximo disponível para nos acarinhar ou apoiar. Aprendemos, assim, naturalmente a controlar as emoções e a investir as nossas energias numa imagem pública idealizada, com a qual nos identificamos e que nos vai levando a endeusar tudo o que represente poder

Investir na imagem
Envolvidos num manto de superioridade mas com as suas fragilidades anestesiadas, os narcisistas aparecem aos outros como se nada temessem.
Vivem, no entanto, dependentes de uma fachada. E, de olhos fechados para a realidade do que são, vão caindo num saco sem fundo, para onde arrastam os muitos outros que facilmente atraem. Cheios de charme, sedutores, agradáveis, simpáticos e inteligentes, hábeis na aproximação física e no relacionamento sexual, é fácil aparecerem-nos como capazes de corresponder aos nossos sonhos - sobretudo se tivermos sonhos de grandeza. Capazes de nos dar a ilusão de um amor que, no entanto, não passa de utopia.
E, nos momentos em que estão no ponto mais alto do seu impulso, parecem, de facto, vibrar. Acontece porém que, ao olharem para nós, não é como pessoas reais que nos vêem, mas sim como imagens -que admiram ou não. Objectos capazes de dar -ou não -corpo a um sonho. No fundo, só estão interessados pelo que lhes falta. Preocupam-se tanto consigo mesmos que não se apercebem das necessidades dos outros.

Do Sonho à Realidade
Os Narcisistas não amam. Manipulam. Nada de real dão, por isso, àqueles com quem se relacionam. Podem, sim – e, sem dúvida, não são poucos – levá-los a que se encontrem com o vazio que em si mesmos também existe. Muitos são os que mantêm casamentos que, embora sendo apenas de fachada, conseguem resistir à erosão do tempo. Só que no dia em que o império se desmorona, àquilo que foi vivido com paixão segue-se o desapontamento. O desfazer de algo que, passado o seu tempo de glória, até parece que nunca existiu.
Pródigos também em casos sentimentais rápidos – com pessoas atraentes e bem dotadas, mas de quem mantêm sempre uma certa distância -, os narcisistas têm dificuldade em aguentar uma relação baseada em trocas afectivas reais.

Por Maria José Costa Félix em Revista Xis de 22 de Outubro de 2005

terça-feira, novembro 20, 2007

A boneca

— Não leves sempre essa boneca suja contigo para a cama — disse a mãe de Eva.
— A minha Anita não é nenhuma boneca suja. — respondeu Eva —A minha Anita é muito querida.
— Mas está muito feia — continuou a mãe. — Olha só para a cara e para os cabelos dela!
Quando se olha para a boneca Anita, assim, sem se gostar dela, tem de se admitir. Bonita, não é. As bochechas estão cinzentas e a esboroar-se de tantos beijos e tantas lavagens. Já não tem propriamente um nariz, apenas uma saliência suja, e dos cabelos castanhos já só ficou um pequeno tufo de cabelos ralos.
Isto não incomodava Eva, mas a mãe dizia-lhe constantemente:
— Não queres pedir uma boneca nova pelo Natal? — perguntava-lhe.
Eva apertava a Anita contra si e dizia:
— Não!
— Tenho outra ideia — disse a mãe. — Vamos levar a Anita a um hospital de bonecas e lá põem-lhe cabelo novo e outro nariz.
Eva defendia-se. Não queria entregar a Anita.
Mas, certo dia, Alex, o irmão mais velho, disse uma coisa feia, uma coisa muito má. Disse:
— A tua boneca é um careca tinhoso!
Eva desatou a chorar. Depois, observou a sua Anita pela primeira vez com olhos de ver. Era verdade! A cara da Anita estava cheia de nódoas e a descamar-se, e quase totalmente careca.
Eva correu para a mãe.
— Achas — disse a soluçar — que no hospital das bonecas vão ser bons para a minha Anita?
— Mas claro que sim! — sossegou-a a mãe.
— Então… Por mim, podes levá-la…
Logo na manhã seguinte, a mãe foi ao hospital das bonecas. Era o único na cidade, pois já não havia muita gente que mandasse consertar bonecas.
No hospital das bonecas, um homem examinou a Anita.
— Tem pouco que se aproveite. Precisa de uma cabeça nova, e os braços e as pernas também deviam ser substituídos.
Apresentou à mãe diversas cabeças de bonecas, mas não havia nenhuma que fosse igual à da Anita.
— Além disso — continuou o homem — a reparação custa mais do que uma boneca nova.
A mãe de Eva procurou em todas as lojas de brinquedos uma boneca que, pelo menos, fosse mais ou menos semelhante à antiga Anita. Acabou por comprar uma do mesmo tamanho e com os mesmos cabelos castanhos. No resto, a nova boneca era um pouco diferente, mas encantadora, e tinha uma cara que se podia lavar com água.
Quando chegou a casa com as duas Anitas, a nova e a velha, Eva ainda estava no infantário. Mas Alex já tinha vindo da escola e descobriu a caixa no cesto de compras da mãe.
— Aha! — disse. — Compras de Natal!
— Uma boneca nova para a Eva — respondeu a mãe. — Mas ela não pode saber. Tem de pensar que é a sua Anita.
— Aha! — disse Alex. — Mentiras de Natal!
— Não sejas atrevido — disse a mãe. — É o melhor para a Eva.
— Deixa-a lá ficar com o careca tinhoso — disse Alex.
A mãe arrumou a caixa com a nova boneca no armário da roupa.
— Estou contente por nos vermos finalmente livres daquela coisa tão estragada.
Atirou a Alex o saco de plástico com a antiga boneca.
— Toma — disse. — Mete-a no contentor do lixo, mas lá para o fundo.
Alex pegou na boneca e saiu do quarto a assobiar baixinho.
Desde que a Anita desaparecera, Eva perguntava por ela todos os dias.
— A minha Anita ainda está no hospital? O homem é simpático com ela? Ela não tem saudades? Vou mesmo voltar a tê-la pelo Natal?
E a mãe respondia sempre:
— Sim, Eva. Com certeza, Eva. Não te preocupes, Eva.
Para a noite de Natal, a mãe de Eva vestiu à nova boneca o vestido da Anita e pô-la debaixo da árvore. Com o vestido vermelho, achava a mãe, ficava mesmo parecida com a Anita.
Mas, quando estendeu a boneca a Eva e disse:
— Ora vê como ficou linda a tua Anita! — Eva não aceitou e cruzou as mãos atrás das costas.
— Não! — gritou. — Essa não é a minha Anita!
E olhava decepcionada para a nova boneca:
— Eu quero a minha Anita… a minha Anita! — e começou a chorar baixinho sem parar.
A mãe não contara com isto e tentou consolar Eva. Mostrava-lhe outras prendas, levava-a à árvore de Natal, mas Eva mantinha os olhos baixos. Não queria ouvir nada nem ver prenda nenhuma.
— Anita! — queixava-se a menina. — Onde puseram a minha Anita?
Disse então Alex:
— Se ela não receber de volta a careca tinhosa, vai estragar-nos a festa de Natal.
— Mas… — balbuciou a mãe — tu deitaste…
— Achas? — perguntou Alex.
Correu ao quarto e regressou com um saco de plástico que meteu nas mãos de Eva.
— Anita! — gritou Eva, tirando do saco a velha boneca careca.
Alex sorria.
— E o que vais fazer agora à boneca nova?
— Esta? — perguntou Eva. — Vou dá-la a uma menina que eu não conheça.
— A uma menina… — repetiu Alex. — Ah, claro. Ela não pode ficar a saber que tens uma boneca careca fantástica!

Clube de Contadores de Histórias
Projecto: Abrir as portas ao sonho e à reflexão

Tradução e adaptação
Tilde Michels
Anne Braun (org.)
Weihnachtsgeschichten
Würzburg, Arena Verlag, 1991

segunda-feira, novembro 19, 2007

Medo na infância


Se existe uma fase do desenvolvimento infantil em que é normal a criança demonstrar medo (do escuro, de animais, etc.), o grau em que este se vai manifestando na sua vida diária depende da forma como os adultos mostram e explicam (ou deixam por explicar) o mundo à criança.


Por exemplo, existem pais que vêem perigo em tudo o que rodeia a criança e que esta não pode mexer um braço ou uma perna que eles já estão a gritar "Cuidado!". Esta forma de agir mostra à criança que o mundo é um local inseguro e ameaçador.


Por outro lado, existem pais que não deixam a criança experimentar a sua autonomia, que lhe dizem que ela não deve, não pode e/ou não sabe fazer. Com esta atitude retiram-lhe todo o prazer de descobrir novas situações, novos objectos, novos comportamentos, e transmitem-lhe que ela não é capaz de realizar nada como deve ser. Já não é o mundo que é um local ameaçador, a criança é que é incapaz de lidar com ele.


A última forma de agir tem danos maiores para a auto-estima, mais directos e rápidos, enquanto que a primeira bloqueia o desenvolvimento da criança e a exploração que esta faz do mundo, sendo consequentemente afectada a sua auto-estima, mas por falta de experimentação.


Também a falta de explicação sobre a forma como o mundo funciona pode deixar a criança insegura, pois não consegue descodificar todas as mensagens complexas que vê e ouve no seu dia a dia.


A transmissão de conhecimentos coerentes e verdadeiros sobre o mundo envolvente ajuda a criança a compreender o mundo em que vive, e, consequentemente, a ganhar segurança para lidar com ele, propicia o desenvolvimento da auto-estima, da auto-confiança e do auto-conceito.


Na internet existem diversos artigos sobre este tema, entre os quais gostaria de destacar o seguinte link:

sexta-feira, novembro 16, 2007

O Cantinho da Leitura

Os Medos das CriançasMedos, angústias, fobias na criança e no adolescente de Béatrice Copper-Royer

Editor: Caleidoscópio
Sinopse
De uma forma séria a autora aborda os diferentes tipos de medo (terrores nocturnos e pesadelos, o medo do escuro ou dos monstros imaginários, por exemplo), as fobias e as angústias, tanto em crianças pequenas como nos adolescentes. O livro apresenta diversos casos reais com que a autora se deparou na sua prática de consulta psicológica, com o objectivo de se poder distinguir entre um medo considerado “normal” e uma fobia ou um medo patológico.
Excerto da obra“Nem todos os medos são nocivos e invalidantes. Existem alguns que são úteis, ajudando a criança a construir-se e a desenvolver-se harmoniosamente: sem o seu medo, a criança poria a mão no fogo, treparia à varanda, iria com qualquer estranho… No entanto, o medo faz parte das emoções que os pais não gostam de descobrir no seu filho, sobretudo na nossa época em que, adulado, este deve ser “perfeito".

Ajude o seu Filho a Passar do Não ao Sim de Barbara Unell, Jerry Wyckoff

Editor: Verso da Kapa

Sinopse
Os pais encontrarão neste livro formas práticas e simples de fazer com que os filhos passem a dizer SIM mais vezes. Ao compreenderem a razão pela qual as crianças dizem NÃO, os pais passam a saber lidar com as várias situações do dia-a-dia sem necessitarem de estar sempre a ralhar, subornar ou ameaçar. Todos os capítulos contêm dicas úteis destinadas a ajudar os pais sempre que os conflitos surjam. Os capítulos abordam, entre muitas outras, as seguintes situações potencialmente problemáticas: «Não, eu não quero dar a mão!» «Não, eu não quero vestir-me!» «Não, eu não quero comer isto!» «Não, eu não quero emprestar os meus brinquedos!» «Não, eu não quero pentear-me!» «Não, eu não quero ir para a escola!» «Não, eu não quero ir para a cama!» «Não, eu não quero tomar o remédio!» «Este guia é uma ajuda para lidar com as crianças em idade pré-escolar. Os conselhos são claros, sensíveis e extremamente fáceis de seguir.»

http://www.webboom.pt/